16.1.12

Corra homem! Corra!

Embora hoje não seja do tipo atlético, já tive meus dias de esportista.Gostava especialmente de correr e participei de algumas maratonas importantes, inclusive a temida Paris-Dakar Sem Carro.

Minha técnica era correr metade da maratona usando apenas o pé direito e a outra metade com o pé esquerdo. Assim, eu não cansava as duas pernas de uma vez só.

Não fosse o meu terrível senso de direção, eu poderia ter ganho alguma dessas competições. Quando eu corri a Maratona de San Francisco, por exemplo, estava indo bem. Mas errei o caminho não sei onde e acabei indo parar na São Silvestre.

Parei de correr quando inventei de competir no Iron Man. Eu estava no auge do meu condicionamento físico, mas na pressa acabei me confundindo. Entrei com a bicicleta no mar. Você não faz ideia de como é difícil pedalar embaixo d’água quando você está usando pneu slick. E foi justamente por causa do pneu que eu perdi: furou quando pasei em cima de um ouriço.

Quando furou o pneu, mandaram-me ir ao box. Eu não sabia que tinha também essa categoria no Iron Man e saí distribuindo socos nos outros competidores. Fui banido para sempre de qualquer esporte e, desde então, só participo de um torneiro de lançamento de marcha atlética clandestina que acontece anualmente no subterrâneo de Hong Kong.

12.1.12

Nascido com um péssimo signo

Não acredito em horóscopo. Pelo menos, não no horóscopo tradicional. Eu sigo o Horóscopo Malvinense, que os ingleses chamam de “horóscopo das Ilhas Falkland”.

Pouca gente conhece esse horóscopo, mas ele foi criado para ser a prova de falhas. Talvez por isso mesmo, nunca tenha sido terminado. O Horóscopo Malvinense tem apenas cinco signos, todos eles nascidos entre os dias 20 e 29 de dezembro. Eu sou do signo do Pichicego.

De acordo com o horóscopo, “as pessoas do signo de Pichicego são lentas, preguiçosas e têm o poder de voar (válido para qualquer destino da América Latina, na baixa temporada)”.

O número de sorte do Pichiceguiano é o pi. Isso é péssimo, porque faz ficar ainda mais improvável ganhar na loteria.

O signo de Pichicego é regido pelo telescópio espacial Hubble e quando ele for desativado, parece que eu vou ter problemas.

Mas a maior desvantagem é que o Horóscopo Malvinense não sai diariamente. Você só fica sabendo o que vai acontecer com você depois que já aconteceu.

9.1.12

Minha história com a arte

Tenho um vizinho leiloeiro. A princípio, pensei que ele fosse marceneiro. Mas é um leiloeiro perfeccionista. Ele fica ensaiando a batida do martelo diariamente. No entanto, nunca reclamei. Não me incomoda o bastante e até me traz boas lembranças da época em que eu era colecionador de arte.

Naquele tempo, eu frequentava leilões com certo afinco. Comprei alguns quadros importantes. Como um do Goya, da fase negra. Bem negra mesmo. Um borrão de tinta preta, na verdade. Ninguém tem muita certeza se é do Goya mesmo, porque a assinatura também está em tinta preta.

Mas não é esse o meu quadro preferido. Gosto muito de um de Chong Li, um pouco conhecido pintor austríaco da Renascença. O quadro tem o nome de “Mulher Cavalgando nas Relvas” e retrata uma máquina de lavar abandonada na escada de um prédio.

No auge da minha obssessão, gastei uma fortuna em uma versão ampliada de “Cristo Lavando os Pés dos Discípulos”, que Tintoretto havia jogado fora porque não coube sobre a lareira.

Acabei me desfazendo da coleção por problemas de espaço. Não tinha parede o suficiente em casa para guardar a coleção e, então, comecei a erguer divisórias em todos os cômodos. Só na sala, fiz oito paredes. Ficou muito difícil encontrar o caminho até o banheiro.

9.11.11

Um longo tempo na vida de um homem

Já mais de uma vez mencionei aqui que sou um homem perigoso. Por mais que eu tente me regenerar, acabo ouvindo o chamado do crime novamente. É mais forte que eu.

Foi por isso que me ausentei daqui durante um bom tempo. É que estive na cadeia.

Mas eu confesso o meu crime. Um crime hediondo, eu sei. Fui pego apertando o botão do elevador para descer quando, na verdade, eu ia subir. Os tiras me pegaram e, mostrando os distintivos, gritaram:

- Parado aí!

Naturalmente, eu não me entreguei tão fácil. Corri, corri muito. Direto para a escada rolante. Na correria, não notei que estava subindo pela escada rolante que descia. Ficou fácil para os policiais me alcançarem e, assim, fui para o xadrez.

Foram tempos difíceis. Tempos difíceis. Você sabe o que fazem na cadeia com quem aperta o botão errado do elevador: quando souberam da minha infração, os outros presos me forçaram a usar um boné virado para o lado. Foi terrível.

É que quando você está usando um boné virado para o lado fica difícil ser levado a sério. No almoço, eu pedia uma Coca-Cola sem limão e o agente penitenciário ria da minha cara. Na hora de dormir, eu falava que queria um edredon mais leve na cela e eles não me atendiam. Mesmo meu advogado riu da minha cara quando eu perguntei se ele conseguiria me transferir para uma cadeia mais perto da praia.

O único que me compreendia era o velho Joe “Caolho” Gibson, um preso que estava pagando sua sentença de 189 anos no xilindró – e não deixavam-no morrer antes disso.

Joe “Caolho” Gibson tinha esse apelido porque era surdo de um ouvido e tinha uma grande dificuldade para entender a anatomia humana. Havia sido preso por transportar quinhentos gramas de queijo gorgonzola no banco da frente do carro. De acordo com a lei, o queijo deveria estar no banco de trás e numa cadeirinha adequada. Mas Joe “Caolho” Gibson não ligava para leis.

Joe era o meu parceiro no trabalho forçado: quebrávamos pedras, fazendo pequenas pedrinhas de bingo. Era um trabalho duro, e ficávamos o dia inteiro sob o sol com pesados martelos. Para suportar o sofrimento, cantávamos velhas músicas de prisão, como “Old Alabama”, “Muderer’s Home”, “Midnight Special” e, naturalmente, “Feelings” do Morris Albert.

Por ser o mais antigo do presídio, ele era bastante respeitado e tinha muitas histórias para contar.

Como a de Clark “Caolho” Stewart, que havia construído um túnel para a fuga, mas ficou parado no congestionamento. Ou de Chapman “Caolho” McGee, que tentou encenar Elvis cantando Jailhouse Rock no refeitório da prisão, mas sofreu um grave distensão no polegar do pé direito quando subiu na mesa – e, por conta disso, o diretor do presídio decidiu tirar todas as mesas do refeitório.

Foi com Joe “Caolho” que eu fiz um plano infalível para fugir da prisão. A ideia era nos disfarçarmos de toalhas sujas. Um guarda nos levaria para a lavanderia, de onde seria fácil escapar.

O plano funcionou e hoje sou um homem livre – um fugitivo, é verdade, mas livre. Joe “Caolho” não teve a mesma sorte. Pobre sujeito, usaram amaciante demais nele.

8.11.11

A Felicidade

Felicidade?

Disse o mais tolo: "Felicidade não existe".

O intelectual: "Não no sentido lato".

O empresário: "Desde que haja lucro".

O operário: "Sem emprego, nem pensar".

O cientista: "Ainda será descoberta".

O místico: "Está escrito nas estrelas".

O político: "Poder".

A igreja: "Sem tristeza, impossível. Amém".

O poeta riu de todos, e, por alguns minutos, foi feliz.

Fernando Anitelli

8.10.11

Eu Não Sei Na Verdade Quem Eu Sou O Teatro Mágico
Eu não sei na verdade quem eu sou
já tentei calcular o meu valor
Mas sempre encontro sorriso e o meu paraíso é onde estou
Por que a gente é desse jeito?
criando conceito pra tudo que restou

Meninas são bruxas e fadas
Palhaço é um homem todo pintado de piadas
Céu azul é o telhado do mundo inteiro
Sonho é uma coisa que fica dentro do meu travesseiro

Mas eu não sei na verdade quem eu sou
Já tentei calcular o meu valor
Mas sempre encontro sorriso
E o meu paraíso é onde estou
Eu não sei... na verdade quem eu sou

Perguntar
Da onde veio a vida
por onde entrei.
Deve haver uma saída
e tudo fica sustentado
Pela fé
Na verdade ninguém
Sabe o que é

Velhinhos são crianças nascidas faz tempo
com água e farinha colo figurinha e foto em documento
Escola! É onde a gente aprende palavrão...
Tambor no meu peito faz o batuque do meu coração

Mas eu não sei na verdade quem eu sou
Já tentei calcular o meu valor
E sempre encontro sorriso... e o meu paraíso é onde estou
Eu não sei na verdade quem eu sou

Perceber que a cada minuto
tem um olho chorando de alegria e outro chorando de luto
tem louco pulando o muro, tem corpo pegando doença
tem gente rezando no escuro, tem gente sentindo ausência

Meninas são bruxas e fadas
Palhaço é um homem todo pintado de piadas
Céu azul é o telhado do mundo inteiro
Sonho é uma coisa que fica dentro do meu travesseiro

Mas eu não sei na verdade quem eu sou
Já tentei calcular o meu valor
Mas sempre encontro sorriso e o meu paraíso é onde estou

Mas eu não sei na verdade quem eu sou...


4.9.11

Sapato novo


Bem, como vai você?
Levo assim calado de lado
do que sonhei um dia
como se a alegria
recolhesse a mão
pra não me alcançar

Poderia até pensar
que foi tudo sonho
ponho meu sapato novo
e vou passear
sozinho como der
eu vou até a beira
besteira qualquer
nem choro mais
só levo a saudade morena
é tudo que vale a pena

Marcelo Camelo