19.8.12

Ainda largo a economia.

Meu problema com o comunismo não tem nada a ver com ideologia ou posição política. O negócio é ter que ler Marx ou Engels. Confesso que acho os textos deles bastante chatos de ler. Se eles tivessem chamado o Mark Twain para escrever o Manifesto Comunista, é bem provável que hoje mesmo eu estivesse agitando uma bandeira vermelha por aí com uma camisa do Che Guevara.

O fato de não ter paciência para textos marxistas foi o que quase me fez sair da faculdade de economia. E se por um lado eu não conseguia ler Karl Marx, por outro nunca tive o menor talento para cálculo.

Estatísticas, por exemplo. Lembro bem de quando eu flertei com a estatística. Eu tentava fazer cálculos para, por exemplo, descobrir quais as chances de cair um meteoro na minha cabeça. Concluí, na ocasião, que eram as mesmas de eu encontrar uma nota de dez marcos alemães na calçada. Nada que pudesse me apavorar. Até que encontrei uma nota de dez marcos alemães na calçada. Passei a andar nas ruas usando um capacete e pegava o metrô sempre que possível.

Também cheguei a calcular as chances de ganhar na loteira. No meu cálculo torto, descobri que eu teria mais chances se apostasse seis vezes no mesmo número. Fazia sentido, porque é mais fácil acertar um só número do que seis. E talvez eu até tivesse mesmo conseguido alguma coisa, se ao menos deixasse de apostar em números irracionais.

Não é que eu tenha abandonado de vez os cálculos estatísticos. De vez em quando, como hobby, ainda saco a minha velha HP 12C e faço umas contas. Invariavelmente, acabo errando. Talvez seja porque eu me acabo sempre me distraindo com aqueles botões com combinações de letras na calculadora. Até hoje evito apertar o EEX (cismei que ele pode acabar explodindo alguma coisa), mas gosto de apertar o PMT porque, na minha versão do aparelho, ele faz aparecer o Donkey Kong.

Mas o fato é que também não levo as estatísticas muito a sério. Elas nunca consideram o quão absurda a vida pode ser, de vez em quando. Acho válido usar isso a meu favor. Pode ser que qualquer dia a Mega Sena dê a raiz quadrada de dois repetida seis vezes.

29.6.12

Expandindo os horizontes

Compenso minha falta de talento procurando andar na companhia de pessoas realmente talentosas . Mas andar com artista, você sabe, é um problema.

Já frequentei muitos almoços e festas de artista, tudo com droga liberada. Da última vez, por exemplo, o Atroveran estava rolando solto. Tenho a impressão de ter visto até mesmo alguns comprimidos de Buscopan, mas eu que não sou chegado a essas coisas fiquei só no Atroveran. Eu também não queria me passar por careta e acabei aceitando um comprimido. Não iria aguentar a pressão do grupo.

Ao que parece, esse pessoal usa o Atroveran para “expandir os horizontes e aumentar a percepção do mundo imaterial” ou coisa parecida. Eu nunca entendi muito bem essas coisas porque o meu único contato com o mundo imaterial foi quando roubaram o toca-fitas do meu carro deixando aquele vazio no painel, muito tempo atrás.

Quando todos os convidados já estavam tomados pelos efeitos do Atroveran, alguém propôs um brinde a Gaia, Mãe da Terra, e ao seu primo de segundo grau, um tal de Serjão. A coisa foi ficando esquisita. E finalmente quando puxaram o violão e ameaçaram cantar O Trem Azul de trás pra frente em sincronia com O Mágico de Oz, achei melhor ir embora.

 Você sabe que o caminho do Atroveran é um caminho sem volta. Já vi pessoas acabarem caindo no Imosec depois, em busca de emoções mais fortes. Cheguei em casa e tomei um banho gelado para passar o efeito. Eu estava preocupado porque, no meio da viagem de Atroveran, eu me vi fazendo tererê em turista na Avenida Paulista para sustentar o meu novo estilo de vida alternativo.

 Não nasci para isso de ser hippie. Estou ficando careca demais. E além disso, usar sandália de palha nessa chuva ia acabar me dando um baita de um resfriado.

12.6.12

Os românticos

Um repórter de TV foi entrevistar aquelas cantoras que participaram de um especial com o Roberto Carlos, há poucos dias. Microfone em punho, abordou a Hebe Camargo. Quis saber:

— Por que Roberto Carlos é o Rei?

A Hebe, depois de uma miada:

— Porque ele é romântico...

Uma grave injustiça conosco, os demais homens, presumíveis súditos de RC. Pelo seguinte: pense em todas as músicas que existem no mundo, milhões delas, talvez bilhões. Em toda a poesia e a literatura. Os filmes. Do que tratam os filmes, a poesia e a música alguma vez já compostos sobre a Terra?

Do amor.

Amor, amor. Noventa por cento das músicas, dos filmes e dos poemas são sobre o amor.

Por que isso? Por nossa causa, nós homens. Porque somos românticos.

As mulheres acham que não. Acham que elas são as românticas. Estão erradas, e a prova disso é o dia de hoje, o Dia dos Namorados. Para quem o Dia dos Namorados foi criado? Obviamente, para as mulheres. Alguém há de dizer que se trata de uma efeméride urdida para satisfazer o romantismo feminino. Mas não. Porque o romantismo não pode estar assinalado no calendário. O romantismo é o que exsuda de um peito dolorido. Quando o Chico Buarque escreveu:

Passas em exposição

Passas sem ver teu vigia

Catando a poesia

Que entornas no chão

Quando o Chico escreveu esses versos, ele não os escreveu porque quis. Escreveu porque tinha de escrever. Porque sentia. Porque via aquela estátua de carne desfilando ali ao lado e precisava gritar o que sentia. E Paulinho da Viola, no dia em que ele cantou:

Ela declarou recentemente

Que ao meu lado não tem mais prazer

No dia em que Paulinho cantou esses versos, ele não os cantou; chorou. Os versos rasgavam seu coração — ela não sentia mais prazer ao lado dele.

E Lupicínio! Todas as músicas de Lupicínio, absolutamente todas, contam uma história de sofrimento. Se não sofresse, Lupicínio não escreveria:

Nunca, nem que o mundo caia sobre mim

Nem se Deus mandar, nem mesmo assim

A teus braços eu não voltarei!

Eis aí. Nós homens sofremos. Somos autênticos em nosso romantismo, e o romantismo só é autêntico se temperado pela dor. Um romantismo que flui todos os dias e se transforma em filmes, música e poemas, quase sempre compostos por atormentadas almas masculinas. Por isso é injusto quando as mulheres dizem que RC é rei por ser romântico. Não pode alguém se destacar por uma característica que todos os seus congêneres possuem. Todos os homens somos românticos. Todos, de caminhoneiros que lacrimejam ao ouvir versos de duplas goianas no asfalto escaldante da estrada a empresários que mergulham o diamante da amada numa taça de Dom Perignon. Todos! As mulheres? As mulheres precisam de datas, porque datas são símbolos. Símbolos de compromisso, que é o que lhes importa, afinal. O compromisso! Elas são práticas, elas marcam dias, elas planejam cerimônias. E nós aqui sofremos, nós homens, os verdadeiros românticos, que não precisamos de datas para sentir.

Texto retirado do (na minha opnião) ótimo David Coimbra.

2.6.12

Saudade

Alguém lembra: Thomas Green Morton? O cara aquele que tinha uma lâmpada em alguma parte do corpo, só não me perguntem onde e quantos watts eram. Fazia apresentações, curava mazelas, dava entrevistas, ganhava dinheiro e gritava Rá! Nunca consegui desvinculá-lo do Sérgio Mallandro.

Sabe, estou com saudades desse tempo de assistir coisas aparentemente impressionantes. Mesmo que fakes - e não circulavam nem sequer na meia verdade -, tínhamos ao menos o desafio de querer saber: “Peraí, como ele fez isso?”. Quem sabe depois mostrar no almoço da família no domingo.

Lembro, com essa, o mestre do ocultismo Chico Xavier. O precursor do “retweet”. Sobre ele, em mim, sempre pairou uma observação inquietante: ele nunca psicografou um professor de caligrafia.

Sabe, estou com saudade desse tempo onde a TV era uma caixa simples e misteriosa. Eu soletrava a marca Telefunken com uma dificuldade assombrosa. Os filmes tinham apenas atores e uma boa história. A gente acreditava até em coisas que não existiam, como o tubarão do Tubarão e as luzes do Thomas. Hoje, nem ET impressiona. Algo tão banal que ainda iremos topar em alguma fila de um bolsa-família.

E o vidente? Outrora símbolo de fascínio, hoje não passa de combustível de piadas previsíveis. Proponho testar a veracidade de algum em um jogo de roleta-russa. E o Inri Cristo. Será que se dermos um tiro ele ressuscita? Vamos testar.

Tenho saudades de um tempo em que pra se dar um “oi” era preciso avistar a pessoa. Hoje, crianças de 10, 12, se conhecem mais pela Internet do que na escola. Até a gente mesmo diz que morre de saudades pelo Orkut, mas se abstém de uma visita ao vizinho, ali, 300 metros.

Havia um tempo em que sempre aparecia algo original na música, na arte. Hoje tornou-se obscuro saber o que é diferente. Mesmo o estranho parece já ter sido feito por alguém. O incomum é mais rotineiro do que nunca.

Sabe, estou com saudade desse tempo onde a gente mandava o nostálgico ir se atualizar; o idealista, trabalhar; e o utópico, à merda. É muita saudade de tudo e de todos. Saudade, inclusive, daquele RÁ!

9.5.12

Trovão da monatanha

Todo mundo precisa de um momento de reclusão e isolamento da sociedade. Eu sei porque já tive isso na minha vida. Passei um ano como eremita no alto de uma montanha, não faz muito tempo.

Eu dormia em uma caverna, o que a princípio parece um tanto desconfortável. O encanamento, por exemplo, era péssimo e fazia barulhos estranhos durante a noite. O jornal chegava com certo atraso. Na segunda semana, recebi o jornal que comunicava a morte de Getúlio Vargas. E no domingo seguinte, a capa do jornal mostrava pessoas de roupas coloridas e óculos Ray Ban de armação xadrez, que eu só posso acreditar ter sido uma edição dos anos 80 chegando atrasada.

Tamanho isolamento também fez com que o meu open house na caverna fosse um fiasco. Mas se por um lado nenhum dos convidados foi, também não tinha nenhum vizinho para reclamar do barulho.

Deixei a vida de eremita quando saí pra comprar pão. A padaria mais próxima ficava em uma travessa da Paulista e eu não conseguia lembrar o caminho de volta para a montanha.

14.4.12

Musicoterapia

Fica aqui a dica do final de semana.

Qual rapaz pré-adolescente nunca foi o relatdo neste ótimo clipe da banda Vanguart?

Simplesmente demais!


12.4.12

Para bailar La Bomba!

Às vezes vejo as pessoas tensas no trânsito, numa partida de futebol ou no escritório e penso: “eles precisavam trabalhar um tempo no Esquadrão Anti-Bomba”. Aquilo sim é tenso.

Digo isso porque já trabalhei no Esquadrão Anti-Bomba. Entrei porque eles ofereciam horas prolongadas de almoço e um belo uniforme azul marinho de malha boa.

O dia a dia não era moleza, no entanto. Não bastava apenas seguir as instruções. Lembro-me, por exemplo, do Matheus Boca-de-Latrina. Era só cortar o fio vermelho, no lugar do azul. Mas o pobre homem era daltônico. Foi para os ares, em pedacinhos.

Eu não queria ter o mesmo destino de Matheus Boca-de-Latrina e, por garantia, andava sempre com uma tabela de cores que encontrei em uma revista de decoração. Ajudou em um caso onde a bomba tinha três fios, nas cores fúcsia, esmeralda e marfim. Cortei o fio fúcsia e fiz com os outros dois lindos arranjos para a sala de jantar.

O Esquadrão Anti-Bomba é para homens frios e calculistas. Tudo parece conspirar contra: o suor escorrendo por cima dos olhos, a tremedeira provocada pelas descargas de adrelina, o desconforto de estar espremido sob um carro-bomba, a cueca pinicando. E o tempo. Ah, o tempo, esse implacável inimigo.

O tempo pode ser traiçoeiro. Como quando eu fui desarmar uma bomba-relógio. No entanto, ela estava programada no fuso-horário de Macau. Quando descobri, já era tarde demais. A bomba explodiu e estragou o meu belo uniforme azul marinho.

Se tem uma coisa que acaba com a sua carreira no Esquadrão Anti-Bomba é estragar o uniforme. Até hoje estou pagando a conta da lavanderia.